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Sob novo comando, everis dá prioridade à mão-de-obra
O espanhol Jorge Najera sempre se incomodou com o inverno europeu. "Em Madrid, onde morava, eu ligava o termostato nos 23 graus e só desligava seis meses depois", diz o empresário. Ele está bem mais satisfeito com a temperatura que faz em São Paulo, mas sua vinda para o Brasil, para onde se mudou em abril, está ligado a outro clima: o dos negócios da everis, a empresa de consultoria que ele ajudou a fundar há onze anos.
No ano passado, o Brasil representou 8% da receita global da everis. As vendas no país, no qual a companhia atua desde 2001, foram de R$ 40 milhões, em meio ao bolo total de 285 milhões de euros. Para a direção da everis, a participação brasileira pode ser bem maior. A meta é chegar a R$ 49 milhões neste ano, o equivalente a um crescimento de 22%, acima dos 19% projetados globalmente. Em longo prazo, a expectativa é transformar o Brasil na base de 20% da receita mundial. A América Latina, que hoje responde por essa participação, passaria a representar metade das vendas. "Para fazer isso, é necessário construir escritórios muito sólidos no Brasil e no México", diz Najera.
O desafio básico a superar é a contratação mão-de-obra em volume e qualidade adequados. Atualmente, a everis emprega cerca de 400 pessoas no Brasil, das quais 280 atuam como consultores. Os demais trabalham em outras atividades, como o desenvolvimento de software para clientes. Sob os planos de expansão, o quadro terá de aumentar substancialmente. "A previsão é de elevar o quadro para algo entre 600 e 800 pessoas, no prazo de dois anos", diz Najera.
Para fazer essa ampliação, a everis estuda o estabelecimento, no ano que vem, de um programa de parcerias acadêmicas no Brasil. A experiência está em curso na Espanha. "Por melhor que sejam, as universidades tendem a ser teóricas", afirma o empresário. Com o programa de alianças, a expectativa é de fechar essa lacuna, entregando ao mercado profissionais especializados em tecnologias de parceiros, como SAP, Oracle e Microsoft.
Outra maneira encontrada para responder à questão da mão-de-obra é um programa de contratação de estagiários. "O treinamento dura de oito a dez semanas e durante esse período os candidatos são testados o tempo todo", diz Najera. O prêmio para quem é aprovado é uma oferta de trabalho. A diferença em relação à maioria dos programas de treinamento é que os selecionados entram na everis com a remuneração de profissionais, em vez de estagiários.
A everis foi criada em 1996 por Najera e alguns colegas que trabalhavam na Accenture. Dispostos a montar seu próprio negócio, eles decidiram bater à porta da Fujitsu em busca de apoio. Conseguiram. O resultado foi a criação da DMR Consulting, que entrou no mercado como um braço de consultoria da gigante japonesa de semicondutores, computadores e serviços de tecnologia. "Na época, éramos cinco pessoas. Brincávamos que toda a companhia cabia em um táxi."
Em 1999, os fundadores começaram a executar um plano para assumir o controle da empresa, que foi concluído em 2004, com o apoio de dois fundos de capital de risco que assumiram uma participação minoritária no negócio. Em dezembro de 2006, na segunda etapa do processo, os sócios originais também assumiram a participação que pertencia aos fundos de investimento.
Para ressaltar a mudança, a marca DMR Consulting foi substituída por everis ("verdade", em latim) - um nome sem o acento anglo-saxão anterior e com uma pronúncia parecida em qualquer idioma.
Pelo modelo da everis, todo funcionário detém uma participação acionária na companhia. "Eles ganham as ações no primeiro dia de trabalho, mas têm de ficar na empresa por três anos, no mínimo, para recebê-las", explica Najera.
Os próximos passos em relação à composição societária prevêem dois movimentos estratégicos, incluindo uma oferta pública inicial de ações. "A idéia é ir à bolsa no prazo de dois a quatro anos, dependendo das condições do mercado", afirma o empresário. Ainda não está decidido se a oferta será feita na Espanha ou em algum outro país.
Antes disso, porém, a direção da everis pretende completar uma operação que dará a investidores estratégicos uma participação de 25% na companhia. As negociações estão em andamento e incluem fundos de investimento de fora da Espanha, informa o executivo. O objetivo, diz ele, é dar músculos para a expansão dos negócios. "Não há planos para vender a companhia ou fundí-la com outra empresa."
Além da Espanha e do Brasil, a everis atua na Argentina, no Chile, na Itália, no México e em Portugal. O destino mais recente foi a Colômbia, onde a empresa entrou este ano. A concorrência é global e inclui grandes consultorias internacionais, como Accenture e Deloitte, além do braço especializado da IBM.
Essa internacionalização, diz Najera, é fundamental na estratégia da empresa, de usar a experiência conquistada em um lugar nos demais mercados. A everis trabalhou com a agência de telecomunicações da Espanha em projetos de portabilidade numérica - que permite ao usuário trocar de operadora, mantendo seu número - e tem interesse em aplicar esse conhecimento no Brasil.
